Ontem, 25 de Abril de 2024, Leiria teve a sua Avenida da Liberdade. Leiria é historicamente conservadora e pouco dada a exercícios de cidadania. Leiria gosta de desfiles de carros, do barulho dos “raters”, da feira, dos leitões assados e do porco no espeto.
Ontem Leiria decidiu desfilar Abril e eu lá fui, com expectativa baixa mas com a determinação habitual. A única grande manifestação (à nossa escala) que vivi em Leiria foi nos tempos da Troika, no movimento dos indignados e foi digno de se ver. Aí, fomos umas boas centenas, talvez carregados pelo peso da vida difícil.
Ontem Leiria surpreendeu-me de uma forma extraordinária porque ontem Leiria também saiu à rua, num desfile incrível, multigeracional e multirracial, num desfile às cores, num desfile carregado de miúdos e desculpem o uso da palavra miúdos, é com carinho, admiração e até orgulho.
Ontem, em Leiria, o meu filho, que tem 17 anos, foi comigo. Chegada a hora do desfile disse-me “nós devíamos era ir no moche” e nós fomos e nós segurámos cartazes e nós gritámos Abril. Ontem, o meu filho passou a ser um daqueles miúdos incríveis que, numa imensa minoria, percebem o significado da liberdade e escolhem celebrá-la na rua.
Ontem, hoje e amanhã, não podia, não posso e não poderei sentir maior orgulho do que o conforto da certeza de que os valores fundamentais estão lá e que o caminho é feito do lado certo.
Hoje, são 11 horas da manhã na mesma Leiria e não há um único jornal nesta terra que tenha publicado sequer uma imagem com o que se passou ontem na nossa Avenida da Liberdade, que se chama Heróis de Angola. Escolheram destacar a derrota do União de Leiria… Lamento.
O importante mesmo é que eu, como aquelas centenas de pessoas que lá estiveram ontem, seguimos hoje com uma felicidade extra e isso ninguém nos tira, ainda que não seja notícia.
Patrícia Ervilha

Fotografia: Ricardo Graça

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